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As Imagens da Minha Objectiva

As Imagens da Minha Objectiva

E agora que penso nisto

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Graça Aguiar

 

As cores
com que vejo o mundo
são as que moram no meu peito
São leves?
São escuras?
São alegres?
São tristes?
São todas elas?
Provavelmente!
Mas só eu as posso ver
sentir
pintar
ou transformar.

E agora que penso nisto...
- com que cores pinto eu o mundo?

Depois de certa altura

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(...) mas o dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olhou-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra. (...)

Álvaro de Campos

Eu quero uma casa no campo como Elis Regina

DSC_10929-1-1.jpgEu quero uma casa no campo como Elis Regina,
Plantar os discos, os livros,
E quem sabe uma menina,
Por mim até podem ser mais,
Um amor como os meus pais,
Os dias como os demais,
Sem serem todos iguais.

Casa no campo com a porta sempre aberta,
Deixar entrar amigos,
Partir à descoberta,
Ter a minha cama grande,
A colcha predileta,
E um cão desobediente,
Em cima da coberta.
Quero uma casa completa
Com um pedaço de terra,
E com o espaço quero o tempo,
Adormecer na relva,
Longe da selva de cimento,
Eu acrescento que quero cultivar mais do que mero conhecimento,
Quero uma horta do outro lado da porta e quero a sorte de estar pronta quando a morte me colher,
Quero uma porta do outro lado da morte,
Ter porte de mulher forte quando a vida me escolher.
Quero uma casa no campo que cheire a flores e frutos,
A gomas e sugus,
A doces e sumos,
Cozinhar para quem quer comer,
Comer como sei viver,
Com apetite, já disse que não quero emagrecer.
Comer de colher sopa,
Fazer pão,
Estender a roupa,
Faço pouco das bocas que me dizem para crescer,
Eu quero rasgar janelas nas paredes cujas pedras
Carregar com as mãos que uso para escrever.
Casa no campo com lareira e fogo brando,
Que ilumina todo o ano,
O sorriso de quem amo,
Quero uma casa no campo que pode ser na cidade,
Mas tem de ser de verdade,
Mesmo não tendo morada…

Onde é que aprendeste o que é o infinito?
Foi na contra-capa de um livro da anita
Diz-me qual é o teu perfume favorito?
Pão quente, terra molhada e manjerico

Anda viver comigo
Colamos o nosso umbigo
E não passaremos frio
No nosso lugar estranho
Um filho, um livro, um disco, uma árvore ... 

Capicua